A primeira ideia da Organização Mundial de Saúde (OMS) era erradicar o sarampo até 2010. Depois, a meta passou para 2015. Agora, num relatório, a OMS avisa os países europeus de que o surto de sarampo que se está a viver não só compromete o objectivo traçado, como pode vir a espalhar-se a mais zonas. Só até Outubro deste ano foram registados mais de 26.000 casos.
No relatório da OMS, é referido que, desde 2003, tinha sido feito um grande progresso no combate a esta patologia infecciosa. Porém, em 2009 começaram a ser detectados mais casos e o vírus começou a expandir-se, tendo chegado, em 2010, quase aos 31.000 casos. Até Outubro deste ano, já se ultrapassaram as 26.000 infecções. Dos 53 Estados-membros da região europeia da OMS, 36 declararam infecções. Só em França, o país mais afectado, foram mais de 14.000, existindo também muitos casos na vizinha Espanha.
“Os casos ocorrem predominantemente nas crianças mais velhas ou nos jovens adultos que não foram vacinados ou cuja história de vacinação permanece desconhecida. A primeira razão para o crescimento das transmissões e surtos de sarampo nesta região é uma falha na vacinação”, lê-se no relatório da OMS, que alerta que para ser possível erradicar a doença até 2015 são necessárias taxas de cobertura de vacinação superiores a 95 por cento.
O sarampo é uma das doenças infecciosas mais contagiosas, que se transmite apenas “pessoa-a-pessoa”. Habitualmente, a doença, provocada por um vírus, é benigna, mas em alguns casos pode ser grave ou mesmo mortal. As pessoas não vacinadas e que nunca tiveram sarampo, se forem expostas ao vírus, têm uma elevada probabilidade de adquirir a doença.
A OMS garante, ainda assim, que em parceria com os países tem conseguido aumentar a capacidade de vigilância das autoridades de saúde, assim como a capacidade de detecção precoce destas infecções. E alerta que o sarampo, apesar de ser uma doença curável, não é tão inofensivo como se possa pensar: das 26.000 infecções, 28% necessitaram de hospitalização e nove pessoas morreram.
Portugal só com casos importados
Em Portugal os únicos casos de sarampo confirmados pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) dizem respeito a situações de importação, isto é, de contágio no estrangeiro. Mas a actual ocorrência de surtos de sarampo em muitos países europeus e africanos representa um risco acrescido. Apesar das elevadas taxas de cobertura de vacinação serem teoricamente impeditivas da circulação do vírus no país, a acumulação de eventuais bolsas em zonas de baixa imunidade, em dado momento, pode permitir a ocorrência de surtos. Por isso, a DGS tem insistido na imunização e recordado que a vacina contra o sarampo, a VASPR, faz parte do Plano Nacional de Vacinação português e é composta por duas doses, a primeira das quais deve ser dada ainda em bebé, aos 15 meses, e a segunda por volta dos cinco/seis anos.
Em Portugal, a grande maioria das pessoas está protegida por vacinação ou por ter tido a doença. O Inquérito Serológico Nacional, realizado em 2001/2002, revela que 95 por cento dos cidadãos têm imunidade contra o sarampo o que é compatível com as taxas de cobertura vacinal de 95 a 98 por cento alcançadas em Portugal e com uma eficácia de seroconversão da vacina de 90 a 95 por cento.
Entre os cidadãos nascidos antes de 1969, estima-se que 97 por cento sejam imunes em consequência da imunidade natural resultante do contacto com o vírus num período de elevada incidência da doença (anterior à utilização da vacina). No grupo de pessoas nascidas entre 1970 e 1977 há algumas com imunidade natural e outras que receberam apenas uma dose da vacina, já que foi nestes anos que a vacina foi introduzida no Plano Nacional de Vacinação. As pessoas que nasceram entre 1978 e 1996 foram, em princípio, vacinadas com duas doses e estão imunes. Neste período ocorreram dois surtos de sarampo, em 1989 e 1994, que levaram a um reforço da vacinação.