Benguela - O reinício em Agosto último da circulação do comboio do Caminho-de-ferro de Benguela (CFB) no trajecto Lobito/Huambo, depois de 27 anos de interrupção em consequência da guerra, assume uma importância específica, tendo em conta que vai acelerar o progresso do país, através das trocas comerciais desde o Litoral ao Leste, prevendo-se o transporte de 20 milhões de toneladas de carga diversa e de quatro milhões de passageiros por ano.
O "monstro" adormecido durante duas décadas e meia, devido à guerra, volta à actividade para gerar benefícios ao país, sobretudo transformar o Centro, Sul e Leste numa potência económica, estimulada por centros industriais e comerciais, além de aglomerados populacionais ao longo dos seus eixos, o que vai facilitar o escoamento de produtos, para que a produção nacional ganhe maior competitividade no mercado interno.
Hoje em dia, e graças à evolução a que se assiste, o transporte ferroviário, além de ser muito cómodo, é o mais barato para média e longas distâncias, tendo uma relação entre custo e tempo da viagem, assim como a segurança proporcionada que surge como um dos aspectos positivos e optimizados do comboio.
A reinauguração da ligação ferroviária no dia 30 de Agosto de 2011, entre a cidade do Lobito (Benguela) e o Huambo (Planalto Central), a que presidiu o Chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, surge num contexto específico do desenvolvimento de Angola, com finalidades várias no domínio económico e social, e foi um acontecimento comemorado por milhares de cidadãos.
Após reinaugurar a circulação do comboio no eixo Lobito/Huambo, o Presidente da República anunciou que o próximo passo visa à chegada, em 2012, da locomotiva de passageiros do CFB às províncias do Bié e Moxico, o que se constituirá num importante marco para o país, permitindo a ligação ferroviária do Litoral ao Leste, na fronteira com a Zâmbia.
Passados 27 anos, o CFB, que viu boa parte da sua infra-estrutura e máquinas a ser destruída e danificada pela guerra, conhece uma etapa de modernização, para que seja o "motor" das transformações consequentes do período de paz, a par do papel preponderante no impulso ao desenvolvimento de Angola e da África Austral, possibilitando uma ligação mais rápida entre a Zâmbia, a RDC e o Zimbabwe, diminuindo os custos na importação e exportação de mercadorias, aumentando a competitividade económica da região.
Depois de concluídas as obras previstas, o CFB terá uma capacidade de circulação para 50 comboios por dia, assim como o transporte de quatro milhões de passageiros e de 20 milhões de toneladas de carga diversa anualmente, sobretudo de minério do Baixo Congo, o que, por si só, tem importância para a continuidade do crescimento não só de Angola como da África Austral.
Os meios de transportes têm, em geral, especial importância na correcção de assimetrias regionais, no estímulo às actividades económicas e no intercâmbio cultural, económico e social entre povos e regiões, bem como no desenvolvimento social das populações. O caminho-de-ferro não foge à regra e foi visível, desde sempre, o seu impacto na economia, na sociedade e na cultura do país que adoptou o comboio como forma de transporte por excelência.
Reabilitação alvo da atenção do Executivo
Orientada pelo Executivo, a reabilitação do Caminho-de-ferro de Benguela começou no ano de 2001, com fundos do Estado. Na primeira fase, a conclusão do projecto Calenga-Santa Iria, numa extensão de 44 quilómetros, restabelecer o tráfego ferroviário entre a Caála e o Huambo, em 2002.
Já em Dezembro de 2004, foi concluído o trajecto de 153 quilómetros entre o Lobito e o Cubal, cuja abertura ao tráfego comercial aconteceu somente em Julho de 2005.
A reabertura dos eixos ferroviários Calenga/Santa Iria e Lobito/Cubal deu um impulso ao comércio, pois as populações passaram a escoar os produtos do campo para os centros urbanos, dos quais podiam também receber bens essenciais, razão por que a importância do CFB não pode ser afastada do contexto de desenvolvimento local por ser potenciadora e dinamizadora do estreitamento de relações entre localidades, sobretudo aquelas que, pela falta de meios de transporte alternativos, recorrem ao comboio.
Entretanto, o Executivo, que beneficiou da linha de crédito da China, adjudicou, em Janeiro de 2006, a empreitada das obras de reabilitação e modernização do Caminho-de-ferro de Benguela a construtora chinesa CR-20 (China Railway 20 Bureau Group Corporation), cujos quadros se beneficiaram de formação profissional para responderem aos novos desafios.
As obras de reabilitação da via-férrea e demais infra-estruturas do CFB, com um custo estimado em 1,8 biliões de dólares, já permitiram a recuperação de 810 quilómetros de linha, faltando apenas 534 do total de 1.344 que vão do Lobito ao Luau, na fronteira com a Zâmbia, o que representa 60 porcento.
Segundo o presidente do Conselho de Administração do CFB, Carlos Gomes, as pontes já estão concluídas em cerca de 91 porcento, enquanto as estações a 41 porcento, estando a empreitada a cargo da empreiteira CR-20, com um financiamento da linha de crédito do Governo chinês, no âmbito do Plano Nacional Ferroviário.
Pelo menos mil e 500 trabalhadores chineses, ao lado de angolanos, participam dos trabalhos, cuja conclusão está prevista para 2012, e se resumem na aplicação de carris, introdução de travessas de betão, construção de estações, apeadeiros, entre outras.
O financiamento da China veio tornar mais célere a reabilitação da linha férrea até à província do Moxico, sendo que o Plano Nacional Ferroviário contempla a reparação de locomotivas e pontes, substituição de travessas, novas estações e acções de desminagem ao longo dos eixos ferroviários.
Como prevenir é melhor que remediar, além das obras de reabilitação da linha férrea, o Executivo apostou na modernização do Caminho-de-ferro de Benguela, por meio da importação da África do Sul de novas locomotivas, carruagens de primeira, segunda e terceira classes; vagões de carga para o transporte de contentores, cisternas de combustível, de água, cereais e granel, com vista a garantir o funcionamento da empresa do CFB.
As novas estações e apeadeiros, que, em tempos não muito recuados, eram o orgulho de pequenas localidades, que nasceram com o desenvolvimento do transporte ferroviário no país, são, em alguns casos, autênticas peças de arte, um património cultural que vai desde a arquitectura aos azulejos que pontificam em muitas delas.
Fertilizantes no topo da agenda dos agricultores
Com a circulação do comboio, os produtos, que até então poderiam ficar degradados nos locais de produção, começam a poder chegar com rapidez e segurança aos consumidores, prestando os transportes ferroviários um papel relevante no desenvolvimento do comércio rural inter-regional, assim como no surgimento dos mercados internos.
“Por via do relançamento do Caminho-de-ferro de Benguela, o Executivo resolve um dos principais problemas do sector agrícola, nomeadamente a falta de meios eficientes para escoamento da produção”, como explica à Angop Manuel António Monteiro, presidente da Associação Provincial dos Agricultores de Benguela.
A seu ver, o reinício da circulação do comboio tem também uma função indispensável para dinamizar o projecto dos agricultores de aumentar as exportações de mercadorias a médio prazo, por isso é fundamental o investimento feito na infra-estrutura do CFB.
Para si, além de melhorar a circulação de pessoas, a locomotiva permite a abertura de rotas adequadas para escoar os produtos locais, reduzindo, inclusive, os custos de transportação, o que faz com que a população compre os bens de primeira necessidade a preços mais acessíveis nos mercados-alvo.
Adiantou que os agricultores em Benguela pretendem escoar a médio prazo para o Huambo (antiga Nova Lisboa), através da linha do CFB a partir do Porto do Lobito, quantidades significativas de fertilizantes de que a região do Planalto Central, a par da província do Bié, precisa para o fomento da agricultura e a custos mais baixos.
Na opinião do também empresário, o transporte de fertilizantes por estrada é mais caro, por isso o comboio é vantajoso no que diz respeito ao baixo preço, frisando, porém, que os múltiplos benefícios do CFB serão mais visíveis no trajecto Lobito/Huambo quando os agricultores começarem a exportação em grande escala.
Realçando que para o litoral já têm chegado produtos diversos tanto da província do Huambo. Quanto ao município do Cubal, Manuel António Monteiro diz que a meta para já é a organização a médio prazo do sector, visando à intensificação das trocas comerciais com os agricultores do Planalto Central, estimando um grande alcance económico.
Aproveitou a oportunidade para reconhecer que ao promover o comércio, sobretudo nos municípios do interior que a linha férrea atravessa, o CFB assume-se como impulsionador do progresso económico e social das províncias de Benguela e do Huambo, em particular, e do país em geral.
Em Novembro de 2001, a concessão de 99 anos do CFB terminou, passando o caminho-de-ferro a pertencer ao Estado angolano, assim como todas as infra-estruturas móveis associadas.
Comboio abre novas rotas para escoar produção
Entrevistado pela Angop, o presidente da Federação das Associações e Cooperativas Agrícolas (Unaca) na província de Benguela considera que a retoma da circulação do comboio do CFB no percurso Lobito/Huambo era o sonho da maioria dos mais de 500 mil filiados, entre agricultores e camponeses, já que a perspectiva de escoamento estimula o aumento da produção.
João Simão Januário estima que, com a volta do comboio ao Huambo, a produção agrícola deve crescer a médio prazo, por causa das novas rotas para escoar os produtos do campo para a cidade e em compensação receber também a partir dela sementes, fertilizantes e instrumentos agrícolas para o apoio às actividades agrícolas das associações e cooperativas de camponeses.
“O comboio veio ao encontro da preocupação dos camponeses de procurar alternativas mais rápidas e baratas para retirar a produção dos pólos agrícolas localizados nos municípios de Caimbambo, do Cubal e da Ganda para o litoral ou mesmo para o Planalto Central”, comentou, antevendo que, graças ao CFB, estas regiões têm um potencial de crescimento nos próximos anos.
Deu a conhecer que actualmente a maioria do transporte de produtos agrícolas de Benguela quer para o Huambo, quer para outras províncias é feito por camiões, mas com o desenvolvimento do Caminho-de-ferro essa proporção tende a alterar nos próximos anos de forma mais equilibrada entre o sistema ferroviário e rodoviário.
O responsável anunciou estar em carteira um projecto que visa tornar em 2012 o comboio do CFB num instrumento de progresso da UNACA, por meio da transportação de produtos, como repolho, tomate e cebola em grande escala para os mercados-alvo dos municípios do Huambo, Bié e Moxico, por onde passa a linha, o que poderá diminuir os altos custos dos camiões que tiram o sono aos associados.
De acordo com ele, o comboio ainda pode ser aproveitado para o escoamento a partir do litoral de peixe seco e sal para serem trocados por outros produtos com as associações e cooperativas daquelas províncias do interior do país, as quais podem abastecer batata-rena, feijão e milho a Benguela.
João Simão Januário alerta que a segurança do transporte por camiões fica, muitas vezes, comprometida, devido aos constantes acidentes, o que prejudica o rendimento dos agricultores e camponeses e encarece o frete, a julgar pelo desperdício da carga.
“Com o comboio nos carris, aumenta a segurança e baixa o frete” - diz o presidente da Unaca-Federação, apontando que, por exemplo, um vagão de carga pode transportar, em geral, a mercadoria que caberia em cinco camiões de 50 toneladas cada, facto que mantém estável o preço dos produtos em altura de venda, facilitando a vida aos consumidores.
“Da produção e venda depende a agricultura”, referiu, acrescentado que quanto mais fácil for o escoamento para os grandes mercados para a venda mais facilidade e motivação terá o camponês em produzir mais e melhor, de modo a satisfazer as necessidades.
Especificou que no presente ano agrícola boa parte das associações agrícolas e cooperativas de camponeses já transportou do Cubal, de Caimbambo e da Ganda, com recurso ao comboio, quantidades consideráveis de milho e massambala para os mercados de Benguela, Catumbela e do Lobito.
Histórico
A história do Caminho-de-ferro de Benguela, com uma extensão de 1344 quilómetros, conheceu vários episódios até estar completa a primeira ligação no ano de 1912, entre o Lobito e o Huambo, nove anos depois de instalados os primeiros carris na cidade ferro-portuária.
Depois de uma série de avanços e recuos, as intenções da nova política do Liberalismo Português, centrada essencialmente nos transportes e no desenvolvimento económico começavam a florescer. Construída no período colonial e, entretanto, destruída durante a guerra angolana, a linha segue até a fronteira em Dilolo, numa distância de 1344 quilómetros, onde se conecta com a rede ferroviária Norte/Sul da RDC, e para a sul em direcção à Zâmbia, Zimbabwé e África do Sul.
A construção do Caminho-de-ferro de Benguela foi concebida em 1899, por decreto do governo português, para dar acesso ao interior e às riquezas minerais do Congo Belga, mas apesar das contrariedades que nos anos seguintes foram surgindo à tentativa portuguesa de construir a rede ferroviária para ligar Lobito à fronteira com o então Congo Belga, em 28 de Novembro de 1902 foi assinado um contrato de concessão da obra ao inglês Robert William, que completou a ligação ao Luau, em 1929.
A linha mostrou ser um sucesso, revelando-se muito rentável para as potências coloniais, especialmente porque encurtava a distância para transportar os minérios do sul do Congo para a Europa. Em 1931, o Porto do Lobito recebe por via-férrea o primeiro carregamento de cobre proveniente de Catanga.
Olhos da SADC virados para CFB
A melhoria prevista no sistema de transporte ferroviário do país deverá aproximar o Porto do Lobito aos principais centros de consumo da África Austral, através do Caminho-de-ferro de Benguela. Prova disso, são as mais de quatro milhões de toneladas de minérios que aguardaram por exportação através do CFB e do Porto do Lobito.
O Presidente da República Democrática do Congo (RDC), Joseph Kabila, considerou, ao visitar recentemente o Lobito, que o funcionamento do Caminho-de-ferro de Benguela contribuirá para uma melhor integração económica regional, louvando a total recuperação da linha férrea em prol de Angola e dos demais países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).
Por sua vez, a Zâmbia, o maior produtor africano de cobre, poderá em breve utilizar o Caminho-de-ferro de Benguela para promover o crescimento das suas exportações pelo corredor marítimo, o que vai facilitar o comércio regional e internacional, sobretudo para cargas a granel, tais como o cobre, cuja produção deve subir para mais de um milhão de toneladas até 2015.
O Caminho-de-ferro de Benguela, associado ao Porto do Lobito, é uma infra-estrutura capaz de ajudar no crescimento rápido das economias dos países da região Austral do continente - assinalou recentemente na cidade ferro-portuária a presidente do Parlamento de Moçambique, Verónica Nataniel Dihovo.
A modernização do CFB, a fim de que haja segurança e conforto nos meios de transportes ferroviários, requisitos indispensáveis nos dias de hoje, é, além de um exemplo estratégico do Executivo angolano, também a prova de que o comboio, o "monstro" que já despertou, é capaz de acelerar o progresso social e económico do país, com o aumento da produtividade e facilidade no escoamento dos produtos.